segunda-feira, setembro 28, 2009

.aliterações

ao fim de contas já nem tinha conta das contas que lhe tinham cobrado, pois andava sempre a passear-se pela estratosfera, rebolando em esfera à procura de um extracto...: acreditava na alquimia.

como da alquimia rende apenas o caminho que se caminha até lá, o cobre continua por cobrar, mas creio que a crença vai querer que o cobre seja ouro, por isso, longe estarão as contas que não contam.

terça-feira, setembro 22, 2009

.(des)sincronia

o mar sem espuma preenchia o ar e por isso não havia espaço. os dias passavam e o mar sem espuma, apesar de estar cada vez mais ausente do ar, não deixou que o espaço ficasse ocupado. de repente, não havia nem mar sem espuma nem espaço.

terça-feira, setembro 08, 2009

.it could be you, it could be me

era mais um dia quente a incandescer a paisagem monótona e plana. o seu olhar cansava-se por ter sempre um horizonte infinito, sempre infinito e o silêncio que enchia a sua casa apenas com o seu próprio ruído, era demasiado alto. na cozinha, lá estava ela a inventar o que fazer, sempre fez isso e isso irritava-o. pegava no jornal do dia anterior e fugia do fresco da casa para o calor do vento leste que secava os seus olhos e folheando as páginas que já lera, dava nós nos pensamentos que já pensara.

"It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease

Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone"


Effigy - Andrew Bird

terça-feira, setembro 01, 2009

.olho demasiado clínico

Nasceu num dia em que os narizes eram especialmente grandes, por isso além dos braços, das pernas, do tronco e da cabeça, o nariz acompanhou com ritmo acelerado, o crescimento de todos estes membros. Como a ponta do nariz obrigava o seu olhar a tê-la como ponto de fuga, desde cedo os seus olhos tentaram sair do seu espaço comedido, não tendo outro remédio senão esbugalharem-se. No entanto, esta tentativa não sortiu efeito, por isso teve que recorrer ao uso de óculos com cores suficientemente conspícuas, para que o seu nariz encolhesse. Mas o cabelo, o cabelo era bem bonito, mas ela já não sabia escolher o bonito do feio, por isso, encolheu a sua franja e pintou-o de uma cor que combinada com a cor dos seus óculos fazia lembrar a bandeira nacional portuguesa. Mas gosto do seu tom de pele.