artrose intelectual, gelatina cerebral. cliché social no quadrado. ideias? não, apenas sorrisos banais com perguntas ocas, crises existenciais com questões superfluas.
mate-se a poesia, a música, o desassossego e alimente-se um parasita faminto e acessível.
não há remédio, estulta, vaidosa, pequena. não há remédio...
segunda-feira, abril 11, 2011
quinta-feira, março 03, 2011
.cromo repetido (tirado de um outro baú)
Encontrei este post num dos meus blogs e, apesar de já contar com pelo menos dois anos, o meu ritual do duche matinal permanece igual...
Torneiras Bipolares
Existe uma coisa que me faz sair da cama com maior rapidez: a visualização do meu duche matinal. Após proceder a este ritual, lá me arrasto para o chuveiro, ainda a saborear o chuveiro onírico dos lençóis da minha cama que teimam em me prender. Abro a torneira de modo a posicionar-se na temperatura que eu quero e mal essa temperatura é atingida, eu atiro-me de cabeça e corpo para o chuveiro, de modo a contemplar com cada célula da minha epiderme, a água e o calor que caem sobre mim.
De repente, a água fica gelada, fujo com o braço esquerdo, o braço direito quase fica roxo, num impulso, viro o manípulo para a posição de temperatura máxima, aproximo desta vez o braço esquerdo e este é surpreendido pela elevada temperatura. Nesta fase, tenho o braço direito roxo e hipotérmico e o braço esquerdo vermelho e às manchas com queimaduras de 3º grau.
Volto a tentar regular o manípulo para a temperatura ideal e mal é atingida...eu volto a imergir no banho com um sorriso estúpido de prazer, enquanto o champô massaja as minhas ideias e cabelo. Já de nariz virado para o chuveiro, enquanto o sorriso estúpido de prazer continua preso à minha face, a água, de repente, vem a escaldar. Nariz às manchas, lábios inchados da temperatura excessiva, cabelo ainda com a espuma do champô. Mudo a posição do regulador de temperatura, a água de imediato fica como pedras de gelo a cair sobre os dedos dos pés, que ficam roxos e presos...
Saio da banheira, exausta e com um braço queimado, outro hipotérmico, os lábios inchados, o nariz vermelho e às manchas, os dedos dos pés inertes e roxos e o cabelo colado com os vestígios do champô.
Há que regular estas torneiras bipolares, senão não há quem queira acordar!
Torneiras Bipolares
Existe uma coisa que me faz sair da cama com maior rapidez: a visualização do meu duche matinal. Após proceder a este ritual, lá me arrasto para o chuveiro, ainda a saborear o chuveiro onírico dos lençóis da minha cama que teimam em me prender. Abro a torneira de modo a posicionar-se na temperatura que eu quero e mal essa temperatura é atingida, eu atiro-me de cabeça e corpo para o chuveiro, de modo a contemplar com cada célula da minha epiderme, a água e o calor que caem sobre mim.
De repente, a água fica gelada, fujo com o braço esquerdo, o braço direito quase fica roxo, num impulso, viro o manípulo para a posição de temperatura máxima, aproximo desta vez o braço esquerdo e este é surpreendido pela elevada temperatura. Nesta fase, tenho o braço direito roxo e hipotérmico e o braço esquerdo vermelho e às manchas com queimaduras de 3º grau.
Volto a tentar regular o manípulo para a temperatura ideal e mal é atingida...eu volto a imergir no banho com um sorriso estúpido de prazer, enquanto o champô massaja as minhas ideias e cabelo. Já de nariz virado para o chuveiro, enquanto o sorriso estúpido de prazer continua preso à minha face, a água, de repente, vem a escaldar. Nariz às manchas, lábios inchados da temperatura excessiva, cabelo ainda com a espuma do champô. Mudo a posição do regulador de temperatura, a água de imediato fica como pedras de gelo a cair sobre os dedos dos pés, que ficam roxos e presos...
Saio da banheira, exausta e com um braço queimado, outro hipotérmico, os lábios inchados, o nariz vermelho e às manchas, os dedos dos pés inertes e roxos e o cabelo colado com os vestígios do champô.
Há que regular estas torneiras bipolares, senão não há quem queira acordar!
terça-feira, janeiro 04, 2011
.pretensiosamente uma dissertação sobre a solidão
onde começa/acaba a solidão?
não sei se costumam fazer esta pergunta a vocês próprios, mas eu costumo fazê-la muitas vezes, por isso, caí na tentação de experimentar definir o limiar, pelo menos o meu, da solidão, para balizar, orientar as minhas apreciações sobre a mesma.
na minha opinião, a solidão é per se a ausência de interacção, seja por ausência de um "receptor", por indisponibilidade do "receptor", apesar de estar alcançável pelo "solitário", ou por incapacidade de comunicação do "solitário".
depois de ter chegado a esta solução metódica e quase fria e quase tirada de um manual da faculdade, obsessivamente observei quem me rodeia e quem rodeia quem me rodeia e assim sucessivamente, e, aquilo que constato é bem mais complexo, pois todas as variáveis acima descritas como potenciais vírus causadores da solidão estão, na sua grande maioria, absolutamente interdependentes. ou seja, muitas vezes a ausência de um "receptor" pode ser produto ou da indisponibilidade do mesmo ou a consequência da incapacidade de comunicação do solitário, mas... mais dramático ainda, a ausência de um "receptor" pode ser produto da incapacidade de comunicação do "solitário" que leva à indisponibilidade dos eventuais "receptores".
é uma pescadinha de rabo na boca, um ciclo fisiológico com n variáveis, é um sem fim de razões que se atropelam e interceptam com o mesmo à vontade que as infinitas rectas que se cruzam infinitamente no espaço, etc...
é estranho, é complexo, é desconfortável de pensar. mas a mim conforta-me saber que, caso caia na espiral da solidão, poderei tentar quebrar o ciclo e, acima de tudo, é bom saber que, na grande maioria das vezes, está totalmente dependente de nós a interrupção ou a descontinuação do mesmo.
não gosto da solidão a full-time.
"No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua."
Marcel Proust, in 'À Sombra das Raparigas em Flor'
não sei se costumam fazer esta pergunta a vocês próprios, mas eu costumo fazê-la muitas vezes, por isso, caí na tentação de experimentar definir o limiar, pelo menos o meu, da solidão, para balizar, orientar as minhas apreciações sobre a mesma.
na minha opinião, a solidão é per se a ausência de interacção, seja por ausência de um "receptor", por indisponibilidade do "receptor", apesar de estar alcançável pelo "solitário", ou por incapacidade de comunicação do "solitário".
depois de ter chegado a esta solução metódica e quase fria e quase tirada de um manual da faculdade, obsessivamente observei quem me rodeia e quem rodeia quem me rodeia e assim sucessivamente, e, aquilo que constato é bem mais complexo, pois todas as variáveis acima descritas como potenciais vírus causadores da solidão estão, na sua grande maioria, absolutamente interdependentes. ou seja, muitas vezes a ausência de um "receptor" pode ser produto ou da indisponibilidade do mesmo ou a consequência da incapacidade de comunicação do solitário, mas... mais dramático ainda, a ausência de um "receptor" pode ser produto da incapacidade de comunicação do "solitário" que leva à indisponibilidade dos eventuais "receptores".
é uma pescadinha de rabo na boca, um ciclo fisiológico com n variáveis, é um sem fim de razões que se atropelam e interceptam com o mesmo à vontade que as infinitas rectas que se cruzam infinitamente no espaço, etc...
é estranho, é complexo, é desconfortável de pensar. mas a mim conforta-me saber que, caso caia na espiral da solidão, poderei tentar quebrar o ciclo e, acima de tudo, é bom saber que, na grande maioria das vezes, está totalmente dependente de nós a interrupção ou a descontinuação do mesmo.
não gosto da solidão a full-time.
"No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua."
Marcel Proust, in 'À Sombra das Raparigas em Flor'
terça-feira, dezembro 07, 2010
.o tempo das estrelas sem fim
lá fora, a chuva coloniza o betão armado, o vento sopra forte e determinado por entre a canópia urbana e o frio dissipa-se pelas frinchas frágeis e quase invisíveis. lá fora, exibe-se o vigor do grau de inclinação da terra com o seu próprio eixo, que encurtando os dias, encharca as noites longas com mantas, cobertas e pézinhos de lã.
aquece a acendalha que dá a ignição à futura combustão robusta da lareira, aquece a chaleira no fogão, aquece a luz baixa e quente. e no ar, aromas de cravinho e açafrão a lembrar a companhia das índias e o calor da epopeia das especiarias.
lá fora, o mar obedece ao vento e liberta a espuma zangada para o areal que quase não se vê. o mar aquece a marginal e as nuvens apagam as estrelas. lá fora, mesmo com o olhar colado ao céu apagado, imagina-se constelações sem fim.
aquece a acendalha que dá a ignição à futura combustão robusta da lareira, aquece a chaleira no fogão, aquece a luz baixa e quente. e no ar, aromas de cravinho e açafrão a lembrar a companhia das índias e o calor da epopeia das especiarias.
lá fora, o mar obedece ao vento e liberta a espuma zangada para o areal que quase não se vê. o mar aquece a marginal e as nuvens apagam as estrelas. lá fora, mesmo com o olhar colado ao céu apagado, imagina-se constelações sem fim.
quinta-feira, dezembro 02, 2010
.inventário-anacronia
lembro-me bastante bem como era, era a casa com jardim, um lago, uma buganvília e um cão. tempos em que a presunção e a água benta espargia a existência e os olhares indiscretos e cínicos furavam o pinheiro, a araucária e os canteiros de bolbos coloridos. agora resta-me a buganvília na varanda e a água benta, os olhares cínicos, esses, cegaram, o jardim e o lago, só os do parque público aqui perto. não sei muito bem como vim parar ao agora, passou tudo muito rápido e parece que já tive, pelo menos, umas 5 vidas dentro da minha, algumas das quais sem buganvília ou água benta. e agora que estou numa encruzilhada que ainda não percebi se tem ou não estradas para trilhar, cheguei aquele lugar comum do pensamento: quanto do meu passado será meu futuro? e esta batida já gasta e quase desinteressante, apaga o ser epicurista que trago há muito tempo dentro de mim. agora é ontem. ontem é agora.
espiral anacrónica! e o que eu realmente quero é viver no bairro das janelas coloridas, aquele onde os meninos brincam na rua e onde as plantas trepadeiras servem para pintar e colorir mais cada casa. uma espécie de bairro do "Conta-me como foi", sei lá, gosto daquilo! e talvez aí conseguisse romper a barreira temporal que me impus, e repor a pulsação correcta da vida. falta tão pouco...
espiral anacrónica! e o que eu realmente quero é viver no bairro das janelas coloridas, aquele onde os meninos brincam na rua e onde as plantas trepadeiras servem para pintar e colorir mais cada casa. uma espécie de bairro do "Conta-me como foi", sei lá, gosto daquilo! e talvez aí conseguisse romper a barreira temporal que me impus, e repor a pulsação correcta da vida. falta tão pouco...
quinta-feira, outubro 21, 2010
.existencialismos?
neste momento não sei bem o que é realmente importante, se ter saúde, se ter uma conta choruda, se ter uma máquina fotográfica nova. não sei!
porque ao mesmo tempo que penso que estou bem, que tenho boa companhia para partilhar os lugares (in)comuns da minha vida, há um sentimento de culpa que, por vezes, emerge de um local indeterminado e que me remete como espectadora para um mundo de fantasia publicitária. quando dou por mim, estou a observar uma jovem adulta perfeita, que por detrás de uma lente, utiliza o seu iTelemóvel para fotografar o iPôr-do-sol da sua iCidade onde toda a sua iVida flui recheada de iSonhos e sem limites acaba num iSono descansado, dia após dia.
a minha iVida começa e acaba no meu iPod já ultrapassado, menos mal. de resto tenho falhado redondamente, acerto sempre na vida ao lado. mas... o que é que é realmente importante? juro que não sei!
porque ao mesmo tempo que penso que estou bem, que tenho boa companhia para partilhar os lugares (in)comuns da minha vida, há um sentimento de culpa que, por vezes, emerge de um local indeterminado e que me remete como espectadora para um mundo de fantasia publicitária. quando dou por mim, estou a observar uma jovem adulta perfeita, que por detrás de uma lente, utiliza o seu iTelemóvel para fotografar o iPôr-do-sol da sua iCidade onde toda a sua iVida flui recheada de iSonhos e sem limites acaba num iSono descansado, dia após dia.
a minha iVida começa e acaba no meu iPod já ultrapassado, menos mal. de resto tenho falhado redondamente, acerto sempre na vida ao lado. mas... o que é que é realmente importante? juro que não sei!
quarta-feira, setembro 08, 2010
.oh, porque não!?
é setembro, ainda faz calor, mas já há árvores a deixar cair folhas, enganadas pela duração dos dias. estão mais curtos, por isso as noites prolongam-se quentes.
ouvem-se passinhos de praia e búzios velhos e vislumbra-se a luz laranja de um sol cansado.
palpitar circadiano, mutante urbano, mantém o ritmo colectivo. pretensiosismo, talvez... mas para mim só agora é que começou o verão!
ouvem-se passinhos de praia e búzios velhos e vislumbra-se a luz laranja de um sol cansado.
palpitar circadiano, mutante urbano, mantém o ritmo colectivo. pretensiosismo, talvez... mas para mim só agora é que começou o verão!
terça-feira, agosto 24, 2010
.a seara
tive que reinventar a seara trigueira. a seara ondulada e plana de outrora, espelhava viagens antigas, onde a sombra do chaparro vazio cobria um outro contador de estórias.
hoje, a seara é só minha, mas nela ainda não consigo visualizar o que quero ver. observo apenas o dourado a ondular no vento seco e queixo-me da dificuldade que tenho em respirar, enquanto desvio o olhar para o alcatrão da estrada.
reinventei uma seara azul, tranquila, solitária, com um outro vazio à sombra do chaparro curvado e gasto, que cobre apenas o meu olhar e produz murmúrios salgados e quentes.
hoje, a seara é só minha, mas nela ainda não consigo visualizar o que quero ver. observo apenas o dourado a ondular no vento seco e queixo-me da dificuldade que tenho em respirar, enquanto desvio o olhar para o alcatrão da estrada.
reinventei uma seara azul, tranquila, solitária, com um outro vazio à sombra do chaparro curvado e gasto, que cobre apenas o meu olhar e produz murmúrios salgados e quentes.
sábado, junho 26, 2010
.narciso
reflexo do espelho lento e grande.
desagradável. acessível.
uma justaposição que remedeia, que conforta.
um comprimido leve e sistémico, que actua rigorosamente. o resto, é secundário.
corda bamba, trapézio sem rede, estrada sem saída.
vírus interno, fisiologia da personalidade.
é o reflexo do espelho pequeno e distorcido,
que desenha o mundo,
à sombra. à sombra do reflexo lento e grande.
não olhar, o arco-reflexo empírico e lúcido.
não olhar.
desagradável. acessível.
uma justaposição que remedeia, que conforta.
um comprimido leve e sistémico, que actua rigorosamente. o resto, é secundário.
corda bamba, trapézio sem rede, estrada sem saída.
vírus interno, fisiologia da personalidade.
é o reflexo do espelho pequeno e distorcido,
que desenha o mundo,
à sombra. à sombra do reflexo lento e grande.
não olhar, o arco-reflexo empírico e lúcido.
não olhar.
segunda-feira, maio 24, 2010
.agora só falta escrever
abro o documento word: dissertacaovs2.0.docx, olho para as 3 páginas já escritas, imberbes, estáticas. reparo que tenho que escrever, pelo menos, mais 47 páginas.
fecho o documento word.
leio 3 livros de poemas, 4 romances. leio sobre o passado, a actualidade e leio o futuro.
penso no que poderia ter sido, no que não sou e gostaria de ser, nos livros, nos filmes e nas músicas que já deveria ter experienciado.
abro novamente o ficheiro dissertacaovs2.0.docx. volto a ler as 3 páginas, e desta vez decido que o melhor é delinear um plano, um cronograma, uma meta, um qualquer chicote de gestão que me faça escrever as restantes 47 páginas e gerar ficheiros com nomes como dissertacaovs10.6.docx.
depois de traçar o plano, vem a pausa. preciso de pensar, de consolidar, de estruturar, de desenhar o pensamento que irá preencher o ficheiro. o plano atrasa-se, o plano não está a ser cumprido, eu afinal não sei cumprir prazos, eu afinal sou igual a toda a gente!
vou ler mais livros de poemas e romances. pelo caminho, pego no livro de Proust que tenho ali na estante há anos à minha espera e se calhar vou visitar os avós e cozinhar qualquer coisa que demore tempo.
eu tenho tempo. tenho?
fecho o documento word.
leio 3 livros de poemas, 4 romances. leio sobre o passado, a actualidade e leio o futuro.
penso no que poderia ter sido, no que não sou e gostaria de ser, nos livros, nos filmes e nas músicas que já deveria ter experienciado.
abro novamente o ficheiro dissertacaovs2.0.docx. volto a ler as 3 páginas, e desta vez decido que o melhor é delinear um plano, um cronograma, uma meta, um qualquer chicote de gestão que me faça escrever as restantes 47 páginas e gerar ficheiros com nomes como dissertacaovs10.6.docx.
depois de traçar o plano, vem a pausa. preciso de pensar, de consolidar, de estruturar, de desenhar o pensamento que irá preencher o ficheiro. o plano atrasa-se, o plano não está a ser cumprido, eu afinal não sei cumprir prazos, eu afinal sou igual a toda a gente!
vou ler mais livros de poemas e romances. pelo caminho, pego no livro de Proust que tenho ali na estante há anos à minha espera e se calhar vou visitar os avós e cozinhar qualquer coisa que demore tempo.
eu tenho tempo. tenho?
sexta-feira, maio 21, 2010
.hoje
vou imprimir as estrelas e reunir os astros, colá-los na minha parede e unir ponto a ponto até formar um caminho, um rumo, um sonho que seja a interface do meu devir e a dimensão do meu palpitar.
eu hoje quero mais do que o simples caminhar.
eu hoje quero mais do que o simples caminhar.
segunda-feira, maio 17, 2010
.tecnocrata
instrumentalização da emoção. coração...? NÃO!
a vida são dois dias e ao 2º acaba. há que aproveitar bem cada momento! e se amanhã fizer frio, fico debaixo dos lençóis a pensar no dia de ontem, porque depois de amanhã também é dia.
às vezes deixo que alguém ouça a minha melancolia, mas isso é só naqueles dias em que a almofada fica pequena, mas é tão raro! pois que a melancolia não trás alegria, já se sabe.
irrita-me aquele que vai sempre tomar o café lá no bar a meio da manhã, sempre cabisbaixo o homem... sempre que entra por lá dentro, trás uma nuvem negra carregada. deve achar que é o único com a vida a correr-lhe mal.
eu cá programo tudo! ponho o coração ligado ao computador e programo todas as minhas emoções, assim ando fresca todos os dias. não vou cá deixar o coração mandar-me a melancolia!
coração...? NÃO!
a vida são dois dias e ao 2º acaba. há que aproveitar bem cada momento! e se amanhã fizer frio, fico debaixo dos lençóis a pensar no dia de ontem, porque depois de amanhã também é dia.
às vezes deixo que alguém ouça a minha melancolia, mas isso é só naqueles dias em que a almofada fica pequena, mas é tão raro! pois que a melancolia não trás alegria, já se sabe.
irrita-me aquele que vai sempre tomar o café lá no bar a meio da manhã, sempre cabisbaixo o homem... sempre que entra por lá dentro, trás uma nuvem negra carregada. deve achar que é o único com a vida a correr-lhe mal.
eu cá programo tudo! ponho o coração ligado ao computador e programo todas as minhas emoções, assim ando fresca todos os dias. não vou cá deixar o coração mandar-me a melancolia!
coração...? NÃO!
domingo, abril 18, 2010
.(des)inscrição
sentei-me muitas vezes em parapeitos de janelas planos, coloridos, altivos. era natural, dado o meu tamanho pequeno, ficar confortável dentro de uma esquadria, a olhar ora para dentro, ora para fora de janelas e, assim sorri muitas vezes a fechar os olhos de mansinho, enquanto a mesma briza de sempre corria.
sentei-me muitas vezes em parapeitos de janelas até cair. levantava-me de novo, sacudindo as mãos com aquele ardor seco e curto que fazia com que tivesse fome de cair de novo de um parapeito de uma qualquer janela.
eu de facto sentava-me em parapeitos de janelas variadas. era uma vida mosaico.
sentei-me muitas vezes em parapeitos de janelas até cair. levantava-me de novo, sacudindo as mãos com aquele ardor seco e curto que fazia com que tivesse fome de cair de novo de um parapeito de uma qualquer janela.
eu de facto sentava-me em parapeitos de janelas variadas. era uma vida mosaico.
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
.baudelaire
Só há pouco tempo é que descobri como gosto de autores românticos e, desde então, este texto de Baudelaire está preso na minha cabeça...
"Um Hemisfério Numa Cabeleira
Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água duma nascente, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar.
Se tu pudesses saber tudo o que eu vejo! tudo o que sinto! tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música.
Os teus cabelos contêm um sonho inteiro cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e da pele humana.
No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno.
Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam água.
No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco.
Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras.
Quando mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações."
Baudelaire in Spleen de Paris
"Um Hemisfério Numa Cabeleira
Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água duma nascente, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar.
Se tu pudesses saber tudo o que eu vejo! tudo o que sinto! tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música.
Os teus cabelos contêm um sonho inteiro cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e da pele humana.
No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno.
Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam água.
No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco.
Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras.
Quando mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações."
Baudelaire in Spleen de Paris
sexta-feira, janeiro 29, 2010
.preto no branco
ao ver o barco a partir do porto, o olhar pousou e, enquanto permaneceu estático, o tempo rodopiou à velocidade da luz.
não foi tempo perdido. pensou.
dirigiu-se até ao café da hora do costume, hora essa que nesse dia era mais tarde e, por isso, desencontrou-se.
com calma, procurou o que tinha perdido e quando finalmente encontrou, tinha à sua frente umas trombas de elefante com olhos inflamados e bochechas efervescentes.
"eu não me atrasei, tu é que andaste depressa..."
vieram, de repente, as palavras que amarraram o olhar no chão, que quebraram a ligação feita pouco antes do encontro, enquanto olhava estático para o barco a partir. e agora só uma coisa é que pulsava...
"mas tem que ser tudo preto no branco?"
não foi tempo perdido. pensou.
dirigiu-se até ao café da hora do costume, hora essa que nesse dia era mais tarde e, por isso, desencontrou-se.
com calma, procurou o que tinha perdido e quando finalmente encontrou, tinha à sua frente umas trombas de elefante com olhos inflamados e bochechas efervescentes.
"eu não me atrasei, tu é que andaste depressa..."
vieram, de repente, as palavras que amarraram o olhar no chão, que quebraram a ligação feita pouco antes do encontro, enquanto olhava estático para o barco a partir. e agora só uma coisa é que pulsava...
"mas tem que ser tudo preto no branco?"
quinta-feira, novembro 26, 2009
.conservantes
se calhar é tarde demais, mas foi este o tempo que demorou. esperava que o degelo trouxesse a Primavera, mas afinal é Outono com uma Primavera repetida a desabrochar. como se a memória fosse feita de um material não degradável, de um poliestireno expandido qualquer que impermeabiliza, reforça, isola todas as sinapses do novelo de lã que estava para ali, arrumado no canto.
agora olho para esse novelo desconfiada, distante, a torcer o nariz. parece uma garrafa de sunny delight, que até com o calor extremo do deserto permanece com as suas propriedades químicas e organolépticas intactas, apesar de no supermercado o exibirem nos frigoríficos.
só sei que a luz lá fora está baixa, pálida, esbatida, ténue.
agora olho para esse novelo desconfiada, distante, a torcer o nariz. parece uma garrafa de sunny delight, que até com o calor extremo do deserto permanece com as suas propriedades químicas e organolépticas intactas, apesar de no supermercado o exibirem nos frigoríficos.
só sei que a luz lá fora está baixa, pálida, esbatida, ténue.
segunda-feira, setembro 28, 2009
.aliterações
ao fim de contas já nem tinha conta das contas que lhe tinham cobrado, pois andava sempre a passear-se pela estratosfera, rebolando em esfera à procura de um extracto...: acreditava na alquimia.
como da alquimia rende apenas o caminho que se caminha até lá, o cobre continua por cobrar, mas creio que a crença vai querer que o cobre seja ouro, por isso, longe estarão as contas que não contam.
como da alquimia rende apenas o caminho que se caminha até lá, o cobre continua por cobrar, mas creio que a crença vai querer que o cobre seja ouro, por isso, longe estarão as contas que não contam.
terça-feira, setembro 22, 2009
.(des)sincronia
o mar sem espuma preenchia o ar e por isso não havia espaço. os dias passavam e o mar sem espuma, apesar de estar cada vez mais ausente do ar, não deixou que o espaço ficasse ocupado. de repente, não havia nem mar sem espuma nem espaço.
terça-feira, setembro 08, 2009
.it could be you, it could be me
era mais um dia quente a incandescer a paisagem monótona e plana. o seu olhar cansava-se por ter sempre um horizonte infinito, sempre infinito e o silêncio que enchia a sua casa apenas com o seu próprio ruído, era demasiado alto. na cozinha, lá estava ela a inventar o que fazer, sempre fez isso e isso irritava-o. pegava no jornal do dia anterior e fugia do fresco da casa para o calor do vento leste que secava os seus olhos e folheando as páginas que já lera, dava nós nos pensamentos que já pensara.
"It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease
Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone"
Effigy - Andrew Bird
"It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease
Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone"
Effigy - Andrew Bird
terça-feira, setembro 01, 2009
.olho demasiado clínico
Nasceu num dia em que os narizes eram especialmente grandes, por isso além dos braços, das pernas, do tronco e da cabeça, o nariz acompanhou com ritmo acelerado, o crescimento de todos estes membros. Como a ponta do nariz obrigava o seu olhar a tê-la como ponto de fuga, desde cedo os seus olhos tentaram sair do seu espaço comedido, não tendo outro remédio senão esbugalharem-se. No entanto, esta tentativa não sortiu efeito, por isso teve que recorrer ao uso de óculos com cores suficientemente conspícuas, para que o seu nariz encolhesse. Mas o cabelo, o cabelo era bem bonito, mas ela já não sabia escolher o bonito do feio, por isso, encolheu a sua franja e pintou-o de uma cor que combinada com a cor dos seus óculos fazia lembrar a bandeira nacional portuguesa. Mas gosto do seu tom de pele.
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