domingo, abril 18, 2010

.(des)inscrição

sentei-me muitas vezes em parapeitos de janelas planos, coloridos, altivos. era natural, dado o meu tamanho pequeno, ficar confortável dentro de uma esquadria, a olhar ora para dentro, ora para fora de janelas e, assim sorri muitas vezes a fechar os olhos de mansinho, enquanto a mesma briza de sempre corria.

sentei-me muitas vezes em parapeitos de janelas até cair. levantava-me de novo, sacudindo as mãos com aquele ardor seco e curto que fazia com que tivesse fome de cair de novo de um parapeito de uma qualquer janela.

eu de facto sentava-me em parapeitos de janelas variadas. era uma vida mosaico.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

.baudelaire

Só há pouco tempo é que descobri como gosto de autores românticos e, desde então, este texto de Baudelaire está preso na minha cabeça...

"Um Hemisfério Numa Cabeleira

Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água duma nascente, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar.
Se tu pudesses saber tudo o que eu vejo! tudo o que sinto! tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música.
Os teus cabelos contêm um sonho inteiro cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e da pele humana.
No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno.
Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam água.
No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco.
Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras.
Quando mordisco os t
eus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações."
Baudelaire in Spleen de Paris

sexta-feira, janeiro 29, 2010

.preto no branco

ao ver o barco a partir do porto, o olhar pousou e, enquanto permaneceu estático, o tempo rodopiou à velocidade da luz.

não foi tempo perdido. pensou.

dirigiu-se até ao café da hora do costume, hora essa que nesse dia era mais tarde e, por isso, desencontrou-se.

com calma, procurou o que tinha perdido e quando finalmente encontrou, tinha à sua frente umas trombas de elefante com olhos inflamados e bochechas efervescentes.

"eu não me atrasei, tu é que andaste depressa..."

vieram, de repente, as palavras que amarraram o olhar no chão, que quebraram a ligação feita pouco antes do encontro, enquanto olhava estático para o barco a partir. e agora só uma coisa é que pulsava...

"mas tem que ser tudo preto no branco?"

quinta-feira, novembro 26, 2009

.conservantes

se calhar é tarde demais, mas foi este o tempo que demorou. esperava que o degelo trouxesse a Primavera, mas afinal é Outono com uma Primavera repetida a desabrochar. como se a memória fosse feita de um material não degradável, de um poliestireno expandido qualquer que impermeabiliza, reforça, isola todas as sinapses do novelo de lã que estava para ali, arrumado no canto.

agora olho para esse novelo desconfiada, distante, a torcer o nariz. parece uma garrafa de sunny delight, que até com o calor extremo do deserto permanece com as suas propriedades químicas e organolépticas intactas, apesar de no supermercado o exibirem nos frigoríficos.






só sei que a luz lá fora está baixa, pálida, esbatida, ténue.

segunda-feira, setembro 28, 2009

.aliterações

ao fim de contas já nem tinha conta das contas que lhe tinham cobrado, pois andava sempre a passear-se pela estratosfera, rebolando em esfera à procura de um extracto...: acreditava na alquimia.

como da alquimia rende apenas o caminho que se caminha até lá, o cobre continua por cobrar, mas creio que a crença vai querer que o cobre seja ouro, por isso, longe estarão as contas que não contam.

terça-feira, setembro 22, 2009

.(des)sincronia

o mar sem espuma preenchia o ar e por isso não havia espaço. os dias passavam e o mar sem espuma, apesar de estar cada vez mais ausente do ar, não deixou que o espaço ficasse ocupado. de repente, não havia nem mar sem espuma nem espaço.

terça-feira, setembro 08, 2009

.it could be you, it could be me

era mais um dia quente a incandescer a paisagem monótona e plana. o seu olhar cansava-se por ter sempre um horizonte infinito, sempre infinito e o silêncio que enchia a sua casa apenas com o seu próprio ruído, era demasiado alto. na cozinha, lá estava ela a inventar o que fazer, sempre fez isso e isso irritava-o. pegava no jornal do dia anterior e fugia do fresco da casa para o calor do vento leste que secava os seus olhos e folheando as páginas que já lera, dava nós nos pensamentos que já pensara.

"It could be you, it could be me
Working the door, drinking for free
Carrying on with your conspiracies
Filling the room with a sense of unease

Fake conversations on a nonexistent telephone
Like the words of a man who's spent a little too much time alone
When one has spent too much time alone"


Effigy - Andrew Bird

terça-feira, setembro 01, 2009

.olho demasiado clínico

Nasceu num dia em que os narizes eram especialmente grandes, por isso além dos braços, das pernas, do tronco e da cabeça, o nariz acompanhou com ritmo acelerado, o crescimento de todos estes membros. Como a ponta do nariz obrigava o seu olhar a tê-la como ponto de fuga, desde cedo os seus olhos tentaram sair do seu espaço comedido, não tendo outro remédio senão esbugalharem-se. No entanto, esta tentativa não sortiu efeito, por isso teve que recorrer ao uso de óculos com cores suficientemente conspícuas, para que o seu nariz encolhesse. Mas o cabelo, o cabelo era bem bonito, mas ela já não sabia escolher o bonito do feio, por isso, encolheu a sua franja e pintou-o de uma cor que combinada com a cor dos seus óculos fazia lembrar a bandeira nacional portuguesa. Mas gosto do seu tom de pele.

quarta-feira, agosto 26, 2009

.bucolismo

"Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias."

Alberto Caeiro

segunda-feira, agosto 24, 2009

.hermeticamente fechado

o exercício da diferença sempre foi violento. nunca tinha pensado seriamente nisto, mas é fácil recorrer à nossa memória e verificar como era especialmente difícil na nossa adolescência gostar de algo que mais ninguém do nosso grupo gostasse ou vestir uma roupa que saísse do padrão monótono da mancha a que pertencíamos. quando esta fase termina há aqueles que deixam o modelo monótono da explosão hormonal e há aqueles que mantém o mesmo modelo juntamente com o modelo-padrão dos seus pais, avós, etc. e assim criam-se tensões entre os que aceitam, vivem, procuram outros modelos e aqueles que são prisioneiros do padrão tradicional, tensões estas que criam desigualdades de direitos, inércia social e que fazem com que alguns ombros descaíam a cabeça tensa com o peso do atavismo.

"Agora não, que o meu Pai não quer" - Deolinda

Clicar aqui

sexta-feira, agosto 14, 2009

.the state of our hearts

Open. Soft.
.Closed .Hard
Empty. Young.
.Full .Old
Dependent.
.Independent
Secure.
Insecure.
Static.
Dynamic.
Lost.
Found.
Differentiated.
.Undifferentiated
Unique.
.Replicated
Selfish.
.Generous
Validated.
.Suspended
Loose.
.Obsessive

quinta-feira, agosto 13, 2009

.saudades

debaixo dos óculos de sol, os olhos fixavam-na enquanto ela mergulhava na água bonita. para se distrair, ele ocupava as mãos com o livro, mas, e sem entender, as pedras brancas e polidas, que ocupavam o lugar da areia, atraíram o livro e, de repente, ele estava a entrar na água quente onde ele e ela falavam de coisas enquanto a preguiça flutuava os corpos na direcção do sol.

domingo, julho 26, 2009

.a herança

dois dias desde que a água tinha sido cortada lá em casa, por isso com os dedos sujos e pequenos esfregava a cara com a toalha seca, para tentar apagar a sujidade que o espelho reflectia. tinha que ir para a escola sabendo que quando chegasse, a Professora iria de imediato abrir as janelas, desculpando-se com o calor.

procurava o olhar da mãe que estava preso nas moedas que passeavam pelas mãos, não sabia se estava bem arranjada para ir para a Escola. desde que a fábrica fechou, a mãe começou a olhar menos para ela.



desde que a fábrica fechou a Professora da Escola começou a abrir mais vezes a janela. desde que a fábrica fechou a mãe não a olhava. desde que a fábrica fechou não entendia nada do que a Professora dizia nas aulas. desde que a fábrica fechou os amigos olhavam-na de lado. desde que a fábrica fechou respondia zangada a toda a gente. desde que fábrica fechou os seus braços e pernas não paravam de crescer. desde que a fábrica fechou pensava todos os dias que se não existisse, a mãe não teria que prender tantas vezes o olhar nas moedas que passeiam nas mãos.


- oh não tirei mais um Não Satisfaz!

derrotada, voltou a casa onde o pão a esperava para jantar. não disse à mãe do Não Satisfaz, desde que a fábrica fechou a mãe chora muito com coisas que têm "Não" no nome.

sexta-feira, julho 17, 2009

.o bruno a metro

no balanço do metro, o canto do telemóvel apontava para os vales sumptuosos da elisa.

tremidos, os lábios nervosos da fátima estavam de braço dado com o telemóvel do bruno.

elisa pensou com o seu casaco e o bruno disse para si mesmo: ah, até parece que não tenho aqui a minha fatinha!

cúmplice olhou a fátima para o casaco.




fá-la pela calada, o bruno, o que é claro para a fatinha e para a elisa.




"Tem muito estilo o grilo
(pena dar-lhe pràquilo...)

Quanto quilo de alface
(a alface é ao quilo?)
não comeu já o grilo
para ter tanto estilo!

Faz cri-cri no meu verso,
faz cri-cri no meu quilo.
Cri-cri faz no ouvido
e quase no mamilo.

Dá-se ao grilo a folhinha
mas não guarda sigilo.

Ao canário da alpista
(também telegrafista)
que não anunciasse
logo o meu grilo: alface!

Assim te conto o grilo
se não fores repeti...
se não fores repeti-lo."
O Grilo, Alexandre O'Neil

domingo, julho 12, 2009

.as férias na vila branca dos jacarandás

na pequena vila branca dos jacarandás, as andorinhas voavam rasantes e eléctricas pelo calor seco. os homens da vila, à porta das suas casas pequenas e brancas, esperavam, pesados, o frio da noite na cadeira de palhinha pequena e tosca, plateia da cinzenta calçada e das oliveiras centenárias retorcidas. os miúdos, sujos do dia quente, descansavam no sopé das cadeiras pequenas e toscas, desenhando as rotas das andorinhas efervescentes, enquanto esperavam que as pedras da calçada arrefecessem o cansaço. no ar, o aroma do azeite quente, alho e coentros preenchia a ausência das mulheres na rua, que presas nas casas brancas, cozinhavam o cair da noite.

quando finalmente o sol caía, as ruas ficavam desertas, preparando-se para o regresso dos homens, dos miúdos e, agora também, das mulheres da pequena vila branca dos jacarandás, ao som do tilintar da loiça florida com o metal dos talheres.

recolhidas as andorinhas, vinha o merecido descanso do calor para a rua e com ele as estórias, as discussões, as brincadeiras, transformando o branco da vila em côr e o silêncio quente em fresco palrear. a esta hora, as cadeiras de palhinha pequenas e toscas multiplicavam-se com homens e mulheres da vila e, a calçada cinzenta, tornava-se palco da correria dos miúdos. camufladas, as oliveiras centenárias retorcidas fundiam-se no negro da noite, libertando a vila do seu passado.

lentamente, o branco das casas e o cinzento da calçada voltava a ganhar definição. chegava a hora do sono que preparava a vila para mais um dia a trabalhar a terra fina, outrora fértil, aquecida pelo Sol demasiado quente.

domingo, junho 28, 2009

.ao longe

pela janela vejo o horizonte cinzento e azul delineado pela geometria dos grandes volumes urbanos.

a paisagem rotineira abre fria a janela fechada. o desejo é outro.

o olhar coloniza outra fotografia. recortes do passado, de sonho e horizonte e ao longe... (carregar no: play full song here)



Gnossiennes No.5 - Erik Satie - Reinbert de Leeuw

quinta-feira, junho 25, 2009

terça-feira, junho 23, 2009

.o olhar não mente

é brilhante e emana palavras. de tanto olhar para ele, os meus olhos cansam-se e pedem-me descanso de forma pouco subtil.

já tentei explicar-lhes, aos meus olhos, que preciso deles para continuar a olhar para o ecran brilhante, então, de forma perspicaz e astuta, estes traçaram uma estratégia discreta, colocando pesos, de forma gradual, na minha cabeça. o resultado é óbvio: 7 cafés, pouca comida, música enfiada nas orelhas, guerra corpo-cérebro.

no fim da luta, fica a minha vitória, sobre mim mesma e um cansaço sistémico.

"Sei
fazer a guerra à guerra
sei histórias verdadeiras
sei resistir ao calor, aos temporais

Sei
rasgar quando é preciso
é preciso tantas vezes
duas vezes, outras tantas, muitas mais

Descansa a cabeça, que a travesseira
quem ta oferece é estalajadeira
Descansa a cabeça, que a travesseira
quem ta oferece é estalajadeira ..."

Sérgio Godinho, Descansa a Cabeça (Estalajadeira)

sexta-feira, junho 19, 2009

.sopa de letras

juntei as letras na panela. mexi-as bem, enquanto aqueciam a memória.

temperei a sopa com sal e outras especiarias, tirei a panela do lume e, enquanto as letras borbulhavam, um prato esperava pela sua função.

a sopa de letras era assim:















(imagem de um wordle do meu blog)