"venha, venha, chegue à frente... não, mais um bocadinho, pode ir para trás...! está bom"
desligo o motor irritada com os faróis secos do ressacado, que observam obsessivamente os meus gestos. estes, a ele ditam se vai amealhar mais uns trocados para o seu pão e água. pão e água esses, que sugam todas suas células e secam o seu espírito de desejo.
tal qual um cão de rua, a rodear um saco de lixo que ficou esquecido há 6 dias no beco mais podre da cidade e que espera por lá encontrar, ao menos um osso, um osso que ainda cheire a carne. aquele mesmo cão que provoca a sensação de repugnância e pena em simultâneo, mas que, inevitavelmente, enxotamos para bem longe.
e assim, eu desejo enxotá-lo para não cheirá-lo, para não olhá-lo, para esquecê-lo... e não dou uns trocados para o seu pão e água. e fujo com medo.
terça-feira, abril 01, 2008
sábado, março 08, 2008
.fisioterapia não
já pensei em montar um negócio onde pudesse ganhar dinheiro à séria, que me desse a possibilidade de usar mais de 3 anéis em cada mão, 7 pulseiras cintilantes em cada pulso, carteiras brilhantes e visualmente complexas, botas de cano alto bicudas e com um salto de uns estontiantes 25cm, maquilhagem na cara com uma espessura mínima de 0,5mm, perfume de forte personalidade enjoativa, cabelo longo loiro com raízes pretas, um telemóvel assinado por uma marca de alta costura e um carro de alta cilindrada coupé.
ao construir-me neste cenário de sucesso cosmopolita, imediatamente apercebi-me que os 3 anéis em cada mão, mais as 7 pulseiras cintilantes em cada pulso provavelmente iriam provocar uma tendinite muito grave nos meus dedos e pulso, exigindo meses e meses de fisioterapia intensiva num centro de fisioterapia cheio de velhotas empenadas e de fisioterapeutas aborrecidos. as carteiras brilhantes e visualmente complexas provocariam acidentes de viação ao encandear os condutores e ao entreter visualmente os mesmos. esses acidentes levariam os condutores a ter que fazer fisioterapia, numa clínica que teria velhotas empenadas e fisioterapeutas aborrecidos. as botas de cano alto bicudas e com um salto de 25 cm iriam fazer nascer um anexo nos meus pés (os tais dos joanetes) e provavelmente fazer com que a circulação sanguínea nas minhas pernas ficasse estanque e para contrariar isso, teria que voltar à fisioterapia numa clínica com velhotas empenadas e fisioterapeutas aborrecidos. a maquilhagem de 0.5cm de espessura iria contribuir para o aumento da poluição atmosférica do planeta e para o aumento da incidência de alergias. o perfume de forte personalidade enjoativa, tal como a descrição o indica, iria enjoar. o cabelo longo loiro com raízes pretas provocar-me-ia uma queda de cabelo precoce. o telemóvel assinado por uma marca de alta costura iria atrair um ladrão armado com uma arma de fogo que assaltar-me-ia e fugiria com o meu carro de alta cilindrada coupé comprado a leasing. eu, atrapalhada com os meus longos cabelo loiros com raízes pretas, encandear-me-ia com a minha carteira, tropeçaria nos bicos dos meus sapatos, cairia no chão, partindo a minha clavícula e lesionando o meu tornozelo, tendo que voltar para a clínica de fisioterapia com as mesmas velhotas empenadas e os mesmos fisioterapeutas aborrecidos.
ai... até fiquei cansada só de imaginar, acho que vou-me ficar pela pobreza de espírito.
ao construir-me neste cenário de sucesso cosmopolita, imediatamente apercebi-me que os 3 anéis em cada mão, mais as 7 pulseiras cintilantes em cada pulso provavelmente iriam provocar uma tendinite muito grave nos meus dedos e pulso, exigindo meses e meses de fisioterapia intensiva num centro de fisioterapia cheio de velhotas empenadas e de fisioterapeutas aborrecidos. as carteiras brilhantes e visualmente complexas provocariam acidentes de viação ao encandear os condutores e ao entreter visualmente os mesmos. esses acidentes levariam os condutores a ter que fazer fisioterapia, numa clínica que teria velhotas empenadas e fisioterapeutas aborrecidos. as botas de cano alto bicudas e com um salto de 25 cm iriam fazer nascer um anexo nos meus pés (os tais dos joanetes) e provavelmente fazer com que a circulação sanguínea nas minhas pernas ficasse estanque e para contrariar isso, teria que voltar à fisioterapia numa clínica com velhotas empenadas e fisioterapeutas aborrecidos. a maquilhagem de 0.5cm de espessura iria contribuir para o aumento da poluição atmosférica do planeta e para o aumento da incidência de alergias. o perfume de forte personalidade enjoativa, tal como a descrição o indica, iria enjoar. o cabelo longo loiro com raízes pretas provocar-me-ia uma queda de cabelo precoce. o telemóvel assinado por uma marca de alta costura iria atrair um ladrão armado com uma arma de fogo que assaltar-me-ia e fugiria com o meu carro de alta cilindrada coupé comprado a leasing. eu, atrapalhada com os meus longos cabelo loiros com raízes pretas, encandear-me-ia com a minha carteira, tropeçaria nos bicos dos meus sapatos, cairia no chão, partindo a minha clavícula e lesionando o meu tornozelo, tendo que voltar para a clínica de fisioterapia com as mesmas velhotas empenadas e os mesmos fisioterapeutas aborrecidos.
ai... até fiquei cansada só de imaginar, acho que vou-me ficar pela pobreza de espírito.
segunda-feira, março 03, 2008
.extraordinary machine
(Since I came back from the US my brain works in both languages:Portuguese and English. Today I'm 100% in English mode)
Today while watching some fiona apple interviews on youtube, as I'm a huge fan of her since 1999, I saw a very exotic and artist-like songwriter and singer, full of unsecurities and with a lack in social skills... But then she said...
"I'm an extraordinary machine because no matter what I'll make the most of it..."
So, enough of this cheap talk and listen to the extraordinary machine by CLICKING HERE.
Enjoy it...:)
Today while watching some fiona apple interviews on youtube, as I'm a huge fan of her since 1999, I saw a very exotic and artist-like songwriter and singer, full of unsecurities and with a lack in social skills... But then she said...
"I'm an extraordinary machine because no matter what I'll make the most of it..."
So, enough of this cheap talk and listen to the extraordinary machine by CLICKING HERE.
Enjoy it...:)
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
.o futuro decidi ao não decidir...ao congelar
Foi a Sara quem me apresentou o Jorge e quem, desde logo, me chamou a atenção para as letras da música dele.
Devo confessar que de início estava com aquele sorriso simpático e a pensar: "como é que a Sara gosta disto???"
Comecei a prestar mais atenção... e agora canto e digo o que ele tem para dizer enquanto o faço.
Carreguem AQUI para ver um vídeo do Jorge Cruz. Ou AQUI para irem ao myspace dele.
Amanhã ele vai actuar às 23h, no Contagiarte!
Devo confessar que de início estava com aquele sorriso simpático e a pensar: "como é que a Sara gosta disto???"
Comecei a prestar mais atenção... e agora canto e digo o que ele tem para dizer enquanto o faço.
Carreguem AQUI para ver um vídeo do Jorge Cruz. Ou AQUI para irem ao myspace dele.
Amanhã ele vai actuar às 23h, no Contagiarte!
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
.cacofonia cerebral
Tenho dificuldades em orientar-me, creio que é por causa do campo magnético do meu corpo. Eu sempre achei que tinha um electrão a mais no calcanhar, relativamente à hipófise e, por isso, sempre que pego numa bússola, o meu Norte Magnético entra em conflito com o Norte Magnético da Terra, gerando um conflito de posicionamento na agulha. Esta fica a rodopiar sem parar nos dois sentidos: orientação nula. Se eu ao menos acreditasse naquela coisa do alinhamento dos chakras, possivelmente a esta hora já os tinha alinhado e, se calhar, o maldito electrão do calcanhar já teria saltado fora. Não consigo ser espiritual, pensar que posso levitar, viver das ervinhas... deve ser por isso que não tenho Norte e que a minha frequência (tipo a da rádio) espiritual não permite alcançar o diálogo magnético do campo de orientação, restando, por isso, a minha deambulação terrena, tal qual um animal simples, básico, instintivo...
Pensei em pedir aconselhamento a quem, de facto, tem a frequência (tipo a da rádio) espiritual, que entra em diálogo magnético com o campo de orientação, mas pareceu-me que os chakras dessa pessoa entravam em choque com o meu desalinhamento "chakral" e, por isso, essa pessoa que estava num patamar acima do meu,não conseguia permanecer perto de mim. Tinha que ser mais espiritual, pensar que posso levitar, comer ervinhas, deixar de ser um animal simples, básico e instintivo e tornar-me num bibelot espiritual (digo bibelot porque esta conversa faz-me sempre lembrar os budas bibelot que aparecem recorrentemente na decoração de muitos lares).
Se calhar vou começar a comprar incenso...
Pensei em pedir aconselhamento a quem, de facto, tem a frequência (tipo a da rádio) espiritual, que entra em diálogo magnético com o campo de orientação, mas pareceu-me que os chakras dessa pessoa entravam em choque com o meu desalinhamento "chakral" e, por isso, essa pessoa que estava num patamar acima do meu,não conseguia permanecer perto de mim. Tinha que ser mais espiritual, pensar que posso levitar, comer ervinhas, deixar de ser um animal simples, básico e instintivo e tornar-me num bibelot espiritual (digo bibelot porque esta conversa faz-me sempre lembrar os budas bibelot que aparecem recorrentemente na decoração de muitos lares).
Se calhar vou começar a comprar incenso...
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
.eureka, ufa, que alívio
nunca compreendi muito bem a minha natureza e muita dessa incompreensão traduziu-se, muitas vezes, em desapontamento comigo mesma, numa resma de lamentações e de raiva, num ciclo quase masoquista de intolerância contra mim. o meu (pequeno) percurso tem sido intenso e isso não é mais do que produto da dor a que me exponho, procuro e encontro sempre. é esta a tónica na minha vida.
hoje consegui ver esta geometria mental através de um novo vértice, ao ler uma daquelas frases batidas e enfadonhas, mas que, pelos vistos, existem por alguma razão (nunca gostei dessas razões, parecem-me sempre muito vulgares e desinteressantes também): "sem a dor não se transpõem fronteiras"
"Por caminhos só rectos, não sei ir.
Nos ínvios por que vou, não sei ficar.
Suspenso do passado e do porvir,
Venho e vou!, venho e vou!, não sei parar." - José Régio
hoje consegui ver esta geometria mental através de um novo vértice, ao ler uma daquelas frases batidas e enfadonhas, mas que, pelos vistos, existem por alguma razão (nunca gostei dessas razões, parecem-me sempre muito vulgares e desinteressantes também): "sem a dor não se transpõem fronteiras"
"Por caminhos só rectos, não sei ir.
Nos ínvios por que vou, não sei ficar.
Suspenso do passado e do porvir,
Venho e vou!, venho e vou!, não sei parar." - José Régio
sábado, fevereiro 16, 2008
it's business time...!
Ora bem, ontem recebi uma sms do Zeph Ethilico que reportava uma missão que eu tinha que cumprir... Pois é... Cumpri a missão: abri o youtube e procurei pelos Flight of the Conchords!
Carreguem AQUI e vejam este vídeo e, depois, continuem a ver mais e mais e maiiiis!!
Carreguem AQUI e vejam este vídeo e, depois, continuem a ver mais e mais e maiiiis!!
domingo, fevereiro 10, 2008
escrutinio obliquo.
dissolvo o açúcar no café. sei que estou numa prova contra mim mesma. não perco a concentração da minha colher de plástico que raspa no copo de plástico que por sua vez permite a condução da temperatura para as minhas mãos que ardem de nervos, de calor, de atrapalhação. foco o olhar para os pormenores da parede branca em frente e reparo que colónias de musgo distribuídas ao acaso preenchem-na. talvez isso indique que aquela parede esteja virada para Norte e explique os recorrentes arrepios de frio que sinto enquanto me concentro no copinho de plástico, na colherzinha de plástico e na sua fragilidade enquanto formas descartáveis e perenidade enquanto material. aglutino-me nesta ideia, fecho as válvulas, os olhos, mergulho e venho à superfície segundos depois. senti aquilo, mas desliguei logo.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
depois da automação.
as pregas da saia sem vincos, o cabelo em ninhos de andorinha, os pés com aqueles sapatinhos azuis ortopédicos que entortam mais os pés e as mãos cheias de tinta das canetas de filtro a conduzir por entre o trânsito, perto das nuvens, a desenhar constelações, (o carro de trás não pára de buzinar) a apanhar com o pó dos cometas, a sentir o vento solar, a rebolar nas dunas, a mergulhar numa seara, a comer um gelado de chocolate (porra, o carro de trás está-se a passar!!), a descer de bicicleta aquelas escadas perto da escola, a nadar 2 horas, a vestir a camisola nova, a cantar alto com as amigas no meio de uma serra (será que o carro de trás podia parar de buzinar????), a sonhar, a sonhar, a sonhar... (tantos carros a passar à frente... parecem zangados!)
domingo, fevereiro 03, 2008
lamúrias sem álcool
os olhos inchados e curvos, a boca retraída e tensa, olhar vago em algo simples e lamúrias no canto da boca. o corpo inchado com frio, o pulso negro, a má circulação dos membros, a falta de sorte na inércia, a incapacidade que deus lhe deu, a gripe, o quarto desarrumado, a lamúria da lamúria, circunscrita, delineada, ridícula e obesa. pobre lamúria, pobre lamúria! tendões desajustados, coração sincopado, cama pesada, nefrídeos disfuncionais, esfíncteres obsoletos, azia crónica depois do café, fome depois de comer e no canto da boca, sempre ali no canto da boca, lamúrias que caiem dentro da gola da camisola de polyester que comprou em saldo há 4 anos numa boutique em liquidação de stock.
"Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
-pra acabar este intermedio
Lembrei-me de enlouquecer" Mário de Sá-Carneiro
"Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
-pra acabar este intermedio
Lembrei-me de enlouquecer" Mário de Sá-Carneiro
sábado, novembro 24, 2007
.interruptor geometrico
Linhas rectas paralelas (não coincidentes) interceptam o pó das estrelas | Função: criação do sonho |
Formas isolaterais criam sistemas isolados de raciocínio.
Ângulos vários flexibilizam a rota segmentada entre a geometria das formas.
Interruptor cérebro/coração = Geometria Cerebral
Formas isolaterais criam sistemas isolados de raciocínio.
Ângulos vários flexibilizam a rota segmentada entre a geometria das formas.
Interruptor cérebro/coração = Geometria Cerebral
quinta-feira, novembro 15, 2007
vizinhofobia!!!
Tiraram-me a identidade, hoje sei que eu já não sou a Inês. Sou o raio da vizinha do 4º esquerdo que toca piano.
Consciente da minha condição, o anterior estado de plenitude e de prazer enquanto estudava piano com afinco, transformou-se em pânico, suores frios, mãos trémulas e desarranjos intestinais.
Ocupo um espaço acústico altamente perturbador para o 3º esquerdo, que faz com que os seus ocupantes não consigam descansar, dormir e até viver com qualidade.
Eu, o raio da vizinha do 4º esquerdo que toca piano durante 2 horas ao fim da tarde, estou a mais nas orelhas do 3º esquerdo e nada posso fazer.
Vou continuar a tocar mergulhada no pânico, no suor frio, nas mãos trémulas, nos desarranjos intestinais, criando as condições terceiro-mundistas para os meus pobres vizinhos do 3º esquerdo que muito sofrem e padecem com a sua condição.
Num mundo ideal, imagino os meus vizinhos do 3º esquerdo a tocarem à minha porta com um bouquet de rosas a agradecer e a enaltecer a pianista que sou. Eu, corada e tímida, aceitaria as flores e agradecer-lhes-ía a amabilidade e o reconhecimento e retribuiria com o meu virtuosismo musical, que ainda não possuo, daqui a uns anos...
Alguém está a bater à minha porta... são eles... ouvem-me a teclar no computador e não conseguem concentrar-se no refogado...!!
Consciente da minha condição, o anterior estado de plenitude e de prazer enquanto estudava piano com afinco, transformou-se em pânico, suores frios, mãos trémulas e desarranjos intestinais.
Ocupo um espaço acústico altamente perturbador para o 3º esquerdo, que faz com que os seus ocupantes não consigam descansar, dormir e até viver com qualidade.
Eu, o raio da vizinha do 4º esquerdo que toca piano durante 2 horas ao fim da tarde, estou a mais nas orelhas do 3º esquerdo e nada posso fazer.
Vou continuar a tocar mergulhada no pânico, no suor frio, nas mãos trémulas, nos desarranjos intestinais, criando as condições terceiro-mundistas para os meus pobres vizinhos do 3º esquerdo que muito sofrem e padecem com a sua condição.
Num mundo ideal, imagino os meus vizinhos do 3º esquerdo a tocarem à minha porta com um bouquet de rosas a agradecer e a enaltecer a pianista que sou. Eu, corada e tímida, aceitaria as flores e agradecer-lhes-ía a amabilidade e o reconhecimento e retribuiria com o meu virtuosismo musical, que ainda não possuo, daqui a uns anos...
Alguém está a bater à minha porta... são eles... ouvem-me a teclar no computador e não conseguem concentrar-se no refogado...!!
terça-feira, setembro 18, 2007
.ponto
entre uma janela amarela e um balcão tosco, corriam à pressa olhares desentendidos e palavras silenciosas. a janela, pouco iluminada, era um ponto de fuga e todos os outros pontos fugiam deles mesmos.
explosão e implusão de pontos... de vista.
explosão e implusão de pontos... de vista.
domingo, agosto 26, 2007
estorias.
Tive que deixar a mãe dos meus três filhos. Há muitos anos que me tenho traído para conseguir dar algum conforto a esta mulher. Sou um tipo às direitas, não consigo corromper-me, baixar o meu nível de decência, deixar os meus valores universais e a utopia, e, acima de tudo, não consigo mais viver fora de mim e, por isso, tive que deixar a mãe deles.
Os meus filhos não entendem o que se passa, olham-me com os seus pequenos e frágeis olhos com desdém, lembrando-me que eu falhei. São tão pequenos... Perdi o controlo, estou sózinho e sinto-me desprotegido e abandonado pelos ideiais e pela paixão de viver.
Gostaria que ao menos eles, os meus filhos, caminhassem comigo lado a lado. Assim, eu seria eterno e eles felizes.
Há três meses que não lhe vinham as regras. Sentia o seu corpo inchado, volumoso, corrompido pela paixão. Não sabia o que sentir, embora soubesse que devia estar feliz. Não sabia como era ou quem era o ser que trazia dentro dela, que dependia de si e que iria fazer dela o que ela nunca teve. Seguiram-se seis meses de dores, de noites mal passadas, de solidão, até que um dia o seu corpo a virou-se contra si própria, expelindo o ser que tinha alimentado, carregado durante nove meses. Era o fim e o seu corpo oferecia-lhe mais dor, para que um bébé que ela não sabia quem era ou como era, nascesse. Quando viu o seu bébé enrugado, feio, pequeno e frágil, pensou como poderia vir a gostar de uma coisa assim tão feia.
Os meus filhos não entendem o que se passa, olham-me com os seus pequenos e frágeis olhos com desdém, lembrando-me que eu falhei. São tão pequenos... Perdi o controlo, estou sózinho e sinto-me desprotegido e abandonado pelos ideiais e pela paixão de viver.
Gostaria que ao menos eles, os meus filhos, caminhassem comigo lado a lado. Assim, eu seria eterno e eles felizes.
Há três meses que não lhe vinham as regras. Sentia o seu corpo inchado, volumoso, corrompido pela paixão. Não sabia o que sentir, embora soubesse que devia estar feliz. Não sabia como era ou quem era o ser que trazia dentro dela, que dependia de si e que iria fazer dela o que ela nunca teve. Seguiram-se seis meses de dores, de noites mal passadas, de solidão, até que um dia o seu corpo a virou-se contra si própria, expelindo o ser que tinha alimentado, carregado durante nove meses. Era o fim e o seu corpo oferecia-lhe mais dor, para que um bébé que ela não sabia quem era ou como era, nascesse. Quando viu o seu bébé enrugado, feio, pequeno e frágil, pensou como poderia vir a gostar de uma coisa assim tão feia.
quinta-feira, junho 21, 2007
massa-melódica-espaço-continum
uma torneira aberta pingava. o aglomerado das gotículas formara uma massa contínua, ocupando o espaço que apenas essas pequenas partículas podiam ocupar.
(uma gota.
uma gotinha.
uma gota...)
uma torneira aberta pingava e a melodia que debitava era monótona e tranquila. os compassos eram ora cheios ora vazios e o tempo, incoerente, pulsava.
(uma gota.)
.fim
(uma gota.
uma gotinha.
uma gota...)
uma torneira aberta pingava e a melodia que debitava era monótona e tranquila. os compassos eram ora cheios ora vazios e o tempo, incoerente, pulsava.
(uma gota.)
.fim
segunda-feira, março 27, 2006
a razão é o sentir
Desenha-se uma linha transparente sempre que um castelo de areia cai.
Por vezes, cai-se com as ondas e fica-se em pó.
Ouve-se remoínhos e cose-se novelos suaves de silêncio com pitadas de sal.
Sorri-se doce e embriagadamente constelações etéreas e doces.
Sempre o sentir!
Desenha-se sempre um círculo quando se é esfera.
Procura-se um grão de areia num poço profundo.
Ilumina-se o Sol...
Já me disseram: sempre o sentir!
Por vezes, cai-se com as ondas e fica-se em pó.
Ouve-se remoínhos e cose-se novelos suaves de silêncio com pitadas de sal.
Sorri-se doce e embriagadamente constelações etéreas e doces.
Sempre o sentir!
Desenha-se sempre um círculo quando se é esfera.
Procura-se um grão de areia num poço profundo.
Ilumina-se o Sol...
Já me disseram: sempre o sentir!
domingo, março 26, 2006
(...) entre parêntesis
não foi assim que eu aprendi a sorrir e, estranhamente, sorrio apenas como eu.
quinta-feira, março 23, 2006
Porquê parar?
O leão que era dente rugiu à volta do nariz do vizinho do 2º direito.
O nariz, que era sisudo e sério, respondeu com a arrogância do seu fulano, tendo expirado com força o ar condicionado ao seu corpo.
Nisto, a vizinha do 312 com o balanço das ancas no compasso de entrada desconcertou o nariz sisudo e sério do vizinho do 2º direito. Este começou a embalar-se no ritmo do farejo perdendo solenemente o anterior estado de seriedade.
Eis que os dois deparam-se com a vizinha do 1º esquerdo embrulhada no seu rafeiro, aquele que todas as manhãs deixa a entrada do prédio com presentes de boas-vindas! Ao cruzarem-se os olhos de todos rosnam, as ancas da vizinha do 312 páram a tempo, o nariz ritmado do vizinho do 2º direito encolhe zangado e a boca da vizinha do 1º esquerdo sorri em amarelo.
O filho dos vizinhos do R/C, guiado pela bola de futebol, tropeça nos dois vizinhos que estavam estáticos na entrada do prédio e marca golo no rafeiro da vizinha do 1º esquerdo. Os vizinhos estáticos em euforia gritaram: gooooolo! O rafeiro deu o seu último latido que foi ouvido somente pelo tísico ouvido da sua dona...
O dente que era leão, após ter repousado estes segundos, sentiu de novo a sua força locomotora... Partiu!
O nariz, que era sisudo e sério, respondeu com a arrogância do seu fulano, tendo expirado com força o ar condicionado ao seu corpo.
Nisto, a vizinha do 312 com o balanço das ancas no compasso de entrada desconcertou o nariz sisudo e sério do vizinho do 2º direito. Este começou a embalar-se no ritmo do farejo perdendo solenemente o anterior estado de seriedade.
Eis que os dois deparam-se com a vizinha do 1º esquerdo embrulhada no seu rafeiro, aquele que todas as manhãs deixa a entrada do prédio com presentes de boas-vindas! Ao cruzarem-se os olhos de todos rosnam, as ancas da vizinha do 312 páram a tempo, o nariz ritmado do vizinho do 2º direito encolhe zangado e a boca da vizinha do 1º esquerdo sorri em amarelo.
O filho dos vizinhos do R/C, guiado pela bola de futebol, tropeça nos dois vizinhos que estavam estáticos na entrada do prédio e marca golo no rafeiro da vizinha do 1º esquerdo. Os vizinhos estáticos em euforia gritaram: gooooolo! O rafeiro deu o seu último latido que foi ouvido somente pelo tísico ouvido da sua dona...
O dente que era leão, após ter repousado estes segundos, sentiu de novo a sua força locomotora... Partiu!
quinta-feira, março 16, 2006
o comboio educacional-emocional
Com o pulso fraco mergulhou dentro de uma nuvem, condensando até à alma o seu vapor. (pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
Trilhava montanhas e planícies unindo as duas formas numa só linha e com estas duas dimensões ajudava amores e corações a encontrarem-se nas partidas e chegadas.
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
O 1º Viajante, em poucos segundos seguia viagem. Os seus olhos embrulhados em jornais, pareciam querer mostrar o que era ser actual.
O 2º viajante oferecia à paisagem os seus olhos, queria mostrar a poesia da contemplação.
O 3ºviajante esboçava os beiços macambúzios para os outros dois viajantes. Ele sim é que era sério!
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
1º Viajante: "já viram, caros viajantes, o governo quer aumentar os impostos!!"
2º Viajante:"mas os impostos são só dinheiro... já viu a paisagem? as cores mudam..."
3º Viajante: "se aumentarem os impostos é fácil, gasta-se menos!"
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
De repente o comboio entra num túnel escuro e longo e o silêncio tenso da carruagem transformou-se numa parafernália de cores brilhantes, tendo mesmo sido descrito por outros viajantes uma nuvem que debitava raios de luz, iguais aos relâmpagos da atmosfera. Findo o túnel longo e escuro, já não se encontravam nos seus lugares os três viajantes.
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
Um viajante mais curioso aproximou-se dos lugares onde os três viajantes haviam sido vistos e eis que o seu olhar alcançou um pequeno viajante: "Olá pequeno viajante! Tu por acaso não viste os três viajantes que aqui estavam?" O pequeno viajante responde:"Vêr, não vi..." "Ah... que estranho, pequeno...! Então diz-me lá como te chamas?" "Eu chamo-me viajante 1º 2º e 3º."
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
Trilhava montanhas e planícies unindo as duas formas numa só linha e com estas duas dimensões ajudava amores e corações a encontrarem-se nas partidas e chegadas.
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
O 1º Viajante, em poucos segundos seguia viagem. Os seus olhos embrulhados em jornais, pareciam querer mostrar o que era ser actual.
O 2º viajante oferecia à paisagem os seus olhos, queria mostrar a poesia da contemplação.
O 3ºviajante esboçava os beiços macambúzios para os outros dois viajantes. Ele sim é que era sério!
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
1º Viajante: "já viram, caros viajantes, o governo quer aumentar os impostos!!"
2º Viajante:"mas os impostos são só dinheiro... já viu a paisagem? as cores mudam..."
3º Viajante: "se aumentarem os impostos é fácil, gasta-se menos!"
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
De repente o comboio entra num túnel escuro e longo e o silêncio tenso da carruagem transformou-se numa parafernália de cores brilhantes, tendo mesmo sido descrito por outros viajantes uma nuvem que debitava raios de luz, iguais aos relâmpagos da atmosfera. Findo o túnel longo e escuro, já não se encontravam nos seus lugares os três viajantes.
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
Um viajante mais curioso aproximou-se dos lugares onde os três viajantes haviam sido vistos e eis que o seu olhar alcançou um pequeno viajante: "Olá pequeno viajante! Tu por acaso não viste os três viajantes que aqui estavam?" O pequeno viajante responde:"Vêr, não vi..." "Ah... que estranho, pequeno...! Então diz-me lá como te chamas?" "Eu chamo-me viajante 1º 2º e 3º."
(pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...)
quarta-feira, janeiro 18, 2006
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